sexta-feira, 23 de maio de 2014

Conto - Ane



“E então, o que você vai fazer?” Eram essas as sete palavras que punham em desespero a mente e o coração de Ane. Suas memórias invadiam sua mente tendo como trilha sonora a frase. Lembranças de uma criança com lágrimas escorrendo dos olhos no antes tão amado campo florido. “E então, o que você vai fazer?” De como seu vestido branco de florzinhas vermelhas subiu levemente quando ela caiu e dos dentes de leão que se levantaram em seguida. “E então, o que você vai fazer?” Toda a dor que ela sentiu, com aquele militar que ela nunca havia visto á sua frente. “E então, o que você vai fazer?”
                - Você sabe o que é a morte Ane? - ele havia perguntado.
“E então, o que você vai fazer?”
- É quando as pessoas abandonam as outras. - Ela disse, pelo menos era assim que ela via a morte. As crianças filhas de amigos de seus pais já haviam sido a maioria, abandonadas.
“E então, o que você vai fazer?”
- Não. - Ele disse. - A morte leva as pessoas, Ane. Não perguntam se as pessoas querem ir. Ninguém te abandonou. Mas eles se foram.
“E então, o que você vai fazer?”
- Eles quem? - Ela perguntou temendo saber a resposta.
“E então, o que você vai fazer?”
- Seus pais.
                “E então, o que você vai fazer?”
- Esta é Ane, ela acabou de chegar. Os pais eram militares. E morreram na guerra. Ela não fala muito, e nem se relaciona com as outras crianças. E raramente come. Ela ainda esta em choque. E quando a questionamos ela fixa o olhar no nosso, como se essa fosse toda a resposta de que precisamos.
“E então, o que você vai fazer?”
- Hey, seu nome é Ane, não é? 
                Ane olhou para cima, e encarou o garoto de olhos verdes e cabelos castanho-claros, bagunçados, e então tornou a olhar para a sua boneca favorita no chão.
“E então, o que você vai fazer?”
                - Sei que você não fala com ninguém. – o garoto abaixou-se – E sei que seus pais morreram na guerra.
                Ane olhou para o garoto imediatamente, como se ele tivesse lhe dado um tapa. O encarou com sua raiva infantil e com sua pouca compreensão do mundo.
                “E então, o que você vai fazer?”
                - Meu nome é Liam. E meu pai também morreu na guerra, há um ano. Minha mãe se matou uma semana depois. Eu também não falo com ninguém. Eles não entendem.
“E então, o que você vai fazer?”
                - Eu odeio. – Foi à resposta de Ane.
                - O que? – perguntou o garoto.
“E então, o que você vai fazer?”
                - A guerra. Meus pais. Os militares. Todos. Eu os odeio.
                “E então, o que você vai fazer?”
                - Eu também. – Disse Liam, sentando-se na frente dela. – Odeio todos eles. Principalmente os que têm pena de mim. Eu os odeio. E também odeio a morte. E tudo o que ela faz com as pessoas.
                “E então, o que você vai fazer?”
                - Tudo o que eu sei, é que eu nunca vou lutar. Nunca. A guerra não vai me matar. Eu não vou deixar. – Disse Ane.
                - Eu também. Nunca vou lutar. Nunca. Eu prefiro morrer a lutar. – Disse Liam.
                “E então, o que você vai fazer?”
                O vento bateu em seu rosto. Levando mechas do cabelo castanho mel de Ane para seu rosto adolescente, onde algumas grudaram nas lágrimas. Seu cabelo estava preso, mas a franja na altura da boca não.
                - E então, o que vai fazer Ane Trace? Seguirá os passos de seus pais, ou morrerá?
                Ane o encarou como se ele tivesse lhe dado um tapa. Não um olhar de medo. Mas um olhar acusador, com um desafio calculado.
                - Isso é uma ameaça, senhor? – Sentia o gosto da ironia nas próprias palavras.
                - Não, é um aviso de amigo.
                - Avisos e ameaças ás vezes podem ser a mesma coisa. E o senhor não é meu amigo.
                Todos na sala puderam ouvir o grito de Liam “Ane”, e de novo. E de novo. Ane se levantou batendo as mãos na mesa. E encarou o coronel á sua frente.
                - O que estão fazendo com ele? Se vocês machucarem-no eu nem sei o que vou fazer.
                - Isso foi uma ameaça? – Perguntou o coronel com um meio sorriso.
                - Não, foi um aviso de amiga. – Ane ironizou mais uma vez.
                - Mas você não é minha amiga. Pelo menos não até agora. Sente-se e vou te contar uma história.
                - Não vou me sentar.
                - Ótimo. Fique de pé então. Era uma vez dois homens e uma mulher. Eles eram os melhores policial da história do FBI e ela era a mente mais brilhante da história da CIA. Eles eram os melhores porque tinham algo de especial, no DNA. Algo que morria assim que separado do corpo. Por isso apenas suspeitávamos que eles o tivessem. Algo que só podia ser passado para seus filhos. Um dia um casal deles se apaixonaram. E eles tiveram uma filha. Foi assim que tivemos certeza de que eles o tinham. O governo queria a menina para testá-la e tentar passar seus genes. Queríamos cria-la para a guerra. Imagina o que ela não poderia fazer? Os pais dela queriam protegê-la. Então aceitaram ser da tropa especial. Uma tropa só para pessoas como eles. A ideia era manda-los para uma missão suicida o mais rápido possível. Mas eles esconderam a menina. Não a apresentaram para ninguém que conheciam nem para suas famílias, nem para seus amigos. A menina desapareceu. Oito anos depois encontramos a menina. Mandamos os pais para uma missão suicida. Eles morreram. Mas a menina desapareceu de novo. Sete anos depois, nós encontramos a menina de novo. Ane trace. Já sabe quem é a menina, não sabe?
                - Eu sou a menina. Você matou meus pais. E agora quer que me matar também.
                Mais uma vez o grito de Liam. “Ane” “Ane”.
                - Seus pais só lutaram por amor. É por isso que o seu amigo Liam esta aqui. Acho que sendo filha de quem é esse é o único meio que tenho de te obrigar a lutar.
                - O que acontece se eu disser não?
                - Isso não é óbvio? Ele morre junto com você.
                - Não ouse encostar nele. Eu faço tudo o que você quiser. – Ane cuspiu as palavras, brava com ela mesma.
                - Muito melhor agora. Você pode começar, sentando-se e sem demonstrar que me odeia. Você pode me odiar, mas não pode demonstrar. Essa é uma das regras da vida. Sinta sem demonstrar, e demonstre sem sentir. Demonstre que gosta de mim. Dome seus sentimentos, e então você vai aprender a domar os seus medos. Você é um animal. E eu vou te domar e te tornar dócil e obediente. Á mim é claro.
                Ane controlou sua raiva. Queria gritar, queria ferir, queria... Queria uma coisa que nunca pensou que fosse querer. Queria lutar. Esse sentimento a assustou. Ela realmente queria lutar, e não só de forma metafórica, queria lutar, queria bater, queria... Matar. Não posso dar bola para tudo o que ele diz. Mas eu devo sim, aprender algumas coisas com ele. Pensou. O único jeito de sair daqui com o Liam é fazendo o jogo dele. E aprender a domar meus sentimentos e não só demonstrar o que eu não sinto, como também falar, e lutar de verdade serão essenciais para isso. Demonstrar-me dócil e obediente, querendo mata-lo.
                - Pare com esse olhar de quem esta pensando. Você não pensa. Você escuta e age. É isso que vou querer de você. Além, é claro, da sua determinação e obediência. Posso contar com isso?
                - Ane! – Liam arrebentou a porta reforçada e entrou na sala que parecia uma daquelas salas de interrogatório que passam na TV. Estava ofegante e cheio de hematomas. Sangue escorria de um ferimento acima do olho direito e também de suas mãos, mas aquele sangue não parecia seu, então estava tudo bem.
                - Liam! – Ane viu um homem se aproximando de Liam pelas costas, com uma arma de choque. – Liam atrás de você!
                O homem avançou, Liam virou-se para trás em uma velocidade impressionante, segurou o pulso que empunhava a arma de choque e o puxou tirando seu corpo do caminho e jogando o homem no chão. A arma parou nos pés de Ane que rapidamente a pegou. Não era uma arma de choque como havia pensado. Era uma arma de fogo. Ane pulou pegando impulso na mesa passou o braço em volta do pescoço do coronel em um quase mata leão e apontou a arma para sua cabeça. O soldado que atacou Liam levantou-se e Liam o acertou na cabeça fazendo-o desmaiar.
                - Agora vamos brincar de outro jeito. Liam reviste o coronel e pegue as armas dele, quando terminar de revistar o soldado. Coronel levante as mãos, você é o meu refém.
                - Criança imatura. Não tem nenhum treinamento, vocês dois vão morrer. Meus soldados nunca me deixarão.
                - Se eles te deixarem nós morremos se não, bem, nós saímos daqui e depois vemos o que vamos fazer. – disse Ane.
                - Tenho mais de 150 da elite americana aqui. Vocês nunca sairão inteiros.
                -Se os outros 100 da elite americana forem tão ruins quanto os 50 que tentaram me segurar, vamos sair daqui muito fácil.
                - Nós estamos em uma base secreta, vocês nunca conseguirão sair daqui. Rendam-se e Lutem a nosso favor vocês não sabem ainda qual é o inimigo, vocês não tem noção do que estão fazendo, nunca terão paz, eles os encontrarão e os matarão.
                - Talvez eu até lute do lado inimigo. Eles não mandaram meus pais para uma missão suicida. – disse Ane.
                Liam estava armado até os dentes, tinha uma metralhadora, uma automática e várias outras armas. O coronel só tinha uma arma que atirava dardos. Haviam três botões nela. Um azul, um verde, e um vermelho.
                - Para que servem os botões? – Perguntou Ane.
                - O azul da energia extra para o alvo, o verde faz desmaiar e o vermelho mata. – disse Liam.
                - Quem te disse isso rapaz? – perguntou o coronel.
                - Aprendi na prática. – Respondeu Liam. – Ane, há mais pessoas presas aqui.
                - Não interessa. Vamos embora. – disse Ane.
                - Eles reagiram quando eu gritei o seu nome. Tem certeza de que não quer dar uma olhada?
                - Vamos até lá. Você sabe o caminho?
                - Sei, vamos.
                - Você deve estar se referindo a meus agentes disfarçados, que vão mata-los assim que chegarem perto.
                - Se fossem seus agentes disfarçados você os deixaria nos matar sem falar nada.
                - Ou eu diria para você, para que pensasse exatamente isso e não tivesse mais dúvidas sobre ir lá ou não.
                - E porque você me contaria que o fez? Para me fazer voltar a ter dúvidas?
                O Coronel ficou quieto e sua hesitação deu ainda mais certeza para Ane.
                - Vamos. – Disse a menina, determinada.
                Chegando ao corredor dois homens e uma mulher começaram a gritar. Um casal gritava Ane e o um homem gritava Liam. Como eles sabiam seus nomes? Ane parou de andar, compreendendo tudo. Ficou tremula, e o coronel, percebendo sua fraqueza tirou a arma dela em segundos. Apontando-a para a cabeça da menina. Ane não pensava mais em nada que havia ao seu redor. A sua vida fora uma mentira. No início contada pelos pais e depois pelo coronel. Seus pais estavam vivos e aprisionados.
                - Liam. – Disse Ane, com a voz tremula.
                Liam disparou uma de suas armas contra o coronel.
                - Liam, qual botão você apertou?
                - O verde. E me explica por que a você ficou assim de repente?
                - Aquelas pessoas são nossos pais. Minha mãe e meu pai. E o seu pai. Eles não foram mortos como todos nos fizeram pensar, foram feitos prisioneiros.
                Liam parou de respirar por um tempo.
                - Pai! – Gritou quando finalmente engoliu uma golfada de ar. Correu até a cela começou a tentar abri-la.
                Essa defesa é muito fraca. Tenho na inteligência da minha mãe e a força do meu pai e Liam tem a força do pai dele também, se não tivesse não teria chegado até mim. Se eles são assim tão bons... Porque não escaparam? Alguma armadilha? Não, se houvesse uma Liam já teria morrido forçando as barras como ele esta forçando.
                Eles estão arrumados demais e com ferimentos recentes, mas nenhum antigo. Eles foram pegos recentemente.
                - Liam pare. – Ane gritou. – Pare de forçar as barras, pare de tentar soltá-los. Eles não estão presos há muito tempo. Acabaram de ser capturados. Essa é claramente uma prisão precária para agentes treinados e especiais como eles. Eles podem sair daí sozinhos, e não vai ser muito difícil. Destranque a porta da sua cela mãe. Entortem as barras das de vocês, ou forcem a fechadura, tanto faz.
                A mãe de Ane puxou uma agulha fina que tinha embaixo do cabelo e destrancou a porta com maestria. O pai dela deu um soco na fechadura, quebrando-a. O pai de Liam entortou as barras. Todos eles saíram das celas, com pouquíssimo esforço como Ane havia pensado.
                Liam estava parado, com o pai á sua frente. Ane foi até os pais, mas manteve um metro de distância.
                - Esse é seu pai Liam?
                - Sim. Esse é meu pai.
                - Esse foi o homem que disse que meus pais estavam mortos. E agora eles estão aqui, juntos. O que isso significa? Mãe, pai. Se sabiam que eu corria perigo, porque não foram me procurar? Se ouviram Liam gritar meu nome e o viram, porque não saíram daí para ajudar? Podiam ter saído.
                - Filha sei que tem muitas perguntas para nos fazer. Mas tudo o que eu e seu pai fizemos foi pensando em você.
                - Pensando em mim? Fizeram-me pensar que estavam mortos quando eu tinha apenas oito anos e me deixaram crescer em um orfanato. Sabem o quanto isso mexeu comigo? Sabem quantas famílias tentaram me adotar? Sabem como eu dei um jeito de todas elas me devolverem por medo de me aproximar delas e vê-las morrer?
                - Filha, nós só não queríamos te envolver nisso tudo.
                - E agora, porque quando eu já estava envolvida vocês não me ajudaram.
                - Vocês chegaram até aqui. Nós confiamos em suas capacidades. – Disse o pai de Liam.
                - Confiam em nossas capacidades ou nas capacidades de vocês? Soldados treinados, que já mataram e já morreram. – Disse Ane com sarcasmo.
                O alarme começou a soar e as luzes foram substituídas por luzes vermelhas como as dos carros de polícia. Ane se concentrou e tentou ouvir alguma coisa além das sirenes, para se orientar no escuro, mas as sirenes eram altas demais.

                Tudo aconteceu muito rápido, os tiros, o cheiro de sangue, pessoas caindo, os barulhos de tiro mais altos que as sirenes e a dor aguda. Ane sentiu o gosto de sangue na boca. Os sons pareceram diminuir de intensidade até restar apenas um zumbido quase inaudível em seus ouvidos, o tempo pareceu parar e tudo ficou ainda mais escuro.