sábado, 10 de maio de 2014

Conto - Chuva


Os lembretes escritos na lousa são do mês passado, percebeu a menina. Desembrulhou um bombom.  Aquele tamanco não deveria estar ali. E nem aqueles papéis. Com um suspiro ela se ajeitou na cama, fixou o olhar no teto e desembrulhou outro bombom.
O que estou fazendo? Pensa ela, desembrulhando mais um bombom. Nada. Absolutamente nada. Quer dizer, nada além de detonar essa caixa de bombons. E nem sei por que estou fazendo isso, não estou sequer com fome. Talvez seja só para passar o tempo. O que é péssimo. Vou ficar gorda assim. Dane-se. Desembrulha mais um bombom.
Não posso ficar aqui, esperando a vida passar, posso? Não. A vida não vai me esperar. Desembrulha mais um bombom. Os sons do mundo lá fora entram pela janela aberta e preenchem o quarto. Desembrulhando mais um bombom, a menina tenta distingui-los.
Uma aula de ginástica que mais parece uma balada, uma moto passando rápida, um avião, a chuva fina que começava a cair. Desembrulhou mais um bombom e continuou a ouvir. Outro avião, um carro com som alto, os gritos de uma mulher, e de outra e de um cara também, alguma briga, pensou, desembrulhando outro bombom. A chuva ficou mais forte, e começou a atingi-la. Com um suspiro ela resolveu ignorar a chuva e pegar mais um bombom.
As luzes estavam apagadas e todos os sons foram substituídos pelo barulho estrondoso das gotas de água contra a superfície das casas e ruas. Desembrulhando mais um bombom, lembrou-se de que estava sozinha. Aquilo não a assustava, ela estava acostumada a ficar só. Desembrulhando mais um bombom, pegou o celular para olhar a hora, 23h55.
Os pais costumavam chegar tarde, mas não tanto assim. Ela estendeu a mão para a caixa de bombons, e percebeu que ela estava vazia. Levantou-se para fechar a janela e o vento jogou várias gotas de água nela. A água era viscosa e escura. E tinha cheiro de... Espera isso não é água, pensou. Fechou a janela com força e acendeu a luz do quarto. Ofuscada cobriu os olhos com as mãos e viu o líquido escarlate escorrendo delas. Olhou para o espelho á sua frente e se viu coberta de sangue.
Abriu a janela e viu que tudo estava escuro, nenhuma luz acesa, só a de seu quarto. Mais vento veio em sua direção, ela deu alguns passos para trás e sangue manchou o piso á sua frente.
Assustada fechou a janela com força, trancando-a. Se afastou ainda olhando para a janela, esperando que algo terrível o suficiente para explicar a chuva de sangue entrasse por ela. Nada aconteceu.
A menina respirava tão rápido quanto às batidas de seu coração. Pegou o celular e correu para as escadas. Desceu-as rapidamente, quase tropeçando nos próprios pés com a pressa, discou o numero da mãe, nada. Olhou para a tela do celular. Sem sinal.
Começou a entrar em desespero, afinal, sempre havia sinal em sua casa. Correu em direção ao telefone fixo e colocou-o no ouvido. Mudo. Se estava começando a entrar no mar do desespero antes, agora estava se afogando nele.
Sua respiração estava rápida e irregular, os pelos de seus braços estavam arrepiados, mas não se atreveu a acender a luz, o que quer que estivesse lá, ela não queria ver.
Um raio iluminou a sala, uma sombra se projetou de uma forma que não parecia humana no meio da sala, a três metros dela. Sufocando um grito a menina deu três passos para trás antes de tropeçar na escada e cair sentada no primeiro degrau.
Mais um raio e ela viu a forma se mover devagar, em direção a ela.
- Quem é você? – perguntou – O que você quer?
Ouviu o riso baixo da criatura á sua frente. E uma voz masculina zombeteira respondeu:
- Eu? Você não precisa dessa informação, em breve o seu sangue fará parte da minha chuva.
Mais um raio e a silhueta estava na sua frente, ainda sentada na escada, com a cabeça apoiada na parede, assustada demais para correr gritou:
- Fique longe de mim!

Ouviu mais um riso baixo e sentiu a criatura se aproximando, devagar, sugando sua energia aos poucos, deixando-a cada segundo mais vulnerável. A criatura repetia seu nome, e então, Lídia acordou.